domingo, 30 de janeiro de 2011

O Sol Brilhará


Eu vi a briga
do Sol com a chuva
e nesta luta tão maluca
ninguém sabe o que dará.
Mas eu tenho a certeza
que após virar a mesa
é o sol que vai brilhar.
Por que de todos os eclipses
o mais forte que existe
é aquele que o louco disse
"eles não vão acreditar."
E enquanto o coroinha preguiçoso
gordo que nem um porco
se enche de vinho pra rezar...
eu chamo Raulzito
que surfa no infinito
numa prancha de mil gigabytes.
E eu via briga
do Sol com a chuva
desta luta tão maluca
ninguém sabe o que será.
Mas a pendenga é de amor
desce o Sol e sobe a Lua
e após a nuvem escura
a garoa, de novo, cairá

Constatação



Sou eu o andarilho das estrelas
perdido em um mundo de concreto
e almas encarnadas...
caminhando sigo por dentre
as gentes que se dizem humanas.

Ao meu redor os rostos se embaralham
misturam-se e transfiguram-se
entre ira, choro e gargalhadas.

Sou eu o solitário das multidões
que joga suas palavras mudas
aos surdos ouvidos
que desejam não compreender.

Triste sou eu que ando como um tolo
a falar de mudanças e transformações
derrubar o mito das verdades
e desmistificar todas as mentiras.

Enfim, sou eu o lunático que vive na Terra
e busca transcender ao intransponível.

Mas sozinho em meu intento
sofro o ataque dos medíocres
e entendo, então, com fria clareza
que na inversão direta de uma osmose social
sou eu que luto contra minha própria natureza.

Heresia


A porta da Igreja se fechou
e a última missa que o Padre rezou
não chegou a ter fim.

Templo vazio...
mendigos à margem...
veracidade selvagem...

- Acorda, vagabundo!
Que o sol já raiou
e a luz do novo dia
traz de volta a hipocrisia
que se arrasta pela vida.

Ajoelha-se com a mão no peito
e em seu pensamento torto
entre palavras sem jeito
pede à imagem de um morto
que lhe tenha compaixão.

Reclama sua fome,
chora suas desgraças,
diz como te achas,
revela tua aflição...

Depois espera pelas ruas
entre noites, mulheres e cachaças
o dia que venha uma nova Lua
que te alimente, vista e faça alegre.

E no dia deste milagre
fala ao padre que lhe baniu:

- Nosso Senhor me curou!

Paga todo o mês o dízimo
e chama seu padre amigo
pra jantar em casa contigo
na harmonia do seu lar.

Mas se não chega para ti
esta tal de salvação
fica parado na porta do templo
implorando um pedaço de pão.

Um pedaço de pão...
   Um pedaço de pão...
      Um pedaço de pão...
         Um pedaço de pão...
            Um pedaço de pão...

Soneto Da Saudade


Saudade é coisinha que há sem haver
é um bem-querer em mal-estar
é uma lágrima a alegrar
é um afim de olhos a se ver.

É ferida que não se cura
é tristeza atrás do amor
é um contentamento em sua dor
é uma assim, de assim... demais tão pura.

Mas orvalha-se de noite a solidão em cama
refúgio de humana sinceridade
Saudade... teu nome é mulher.

Que candente brasa joga o homem à chama
ao invés de doída, é uma triste felicidade
Saudade... tão somente é... Saudade.

O Protesto da Rosa



Rosa raivosa
metáfora explícita
de sua seiva formosa
em si só se explica.

A sua doce face enrubescida
em tempos outrora, pomposa
hoje friamente arrefescida
entre construções horrorosas.

Grita ao soprar do vento
Rosa, teu triste lamento
despétala-se a voar.

E que a sua seiva rubra
a todo o mundo cubra
escarlateando o ar.