domingo, 6 de fevereiro de 2011

A Mãe do Pivete


O pivete corre...

Pega-pega ladrão!
Segura! Prende! Bate! Toma!

- Que foi que ele fez?
- Correu!
- Por que correu?
- Quem sabe?

O pivete chora!
Cala a boca, matraca!
Como é o seu nome?
Roubou o quê?
Cadê o outro?

- Nome não tenho
nem nada roubei...
minha mãe trabalha
e meu pai morreu...
sou só criança
batendo picula!

Constrangimento!
Indignação!
Revolta!
Brutalidade!
- Mentira! Vamos pro módulo
você vai falar o que roubou
vai contar tudo tim-tim por tim-tim
passa na frente, moleque!

Tapa na nuca!
Corpo no chão!
Olhos omissos!

- Socorro! Socorro!
- Cala a boca! - Chute na barriga!

Crueldade ao extremo!
Revolta popular!

- Pára, já! - Mãe protetora.

- Você pariu, pra fazer isso?

Tapa na cara!
Mão parada no ar!
Reação!
Soco na cara do canalha
Criança ferida no colo da mãe.

Chega a viatura:
- "vamu" acabar com o tumulto!

Pancadaria geral!

A picula do pivete
finda na loucura do Estado.
E o herói daquele dia
adota o menino
e desposa a mãe.



Passos

Passos perdidos em devaneios...
imagens amadas, quebradas,
almas magoadas, espatifadas...
e o controle se perde na noite
com palavras ditas sem querer
lágrimas corridas sem perceber
e logo, corações em mil pedaços
se fazem, cada um para um lado.

Passos inseguros na loucura
clareando como faróis a neblina
curtindo a doido qualquer aventura
vagando errante num barco de dor e amor...
cada sorriso é uma alegria
e olhares trocados um orgasmo
na sutileza de uma cobra sibilina
se rastejando com uma bola de prata.

Passos gostosos, prazerosos de um abraço
distanciados por barcos distintos
navegando pelos oceanos da vida
singrando os mares das paixões
em ondas gigantescas de puros sentimentos
que explodem em cogumelos atômicos
irradiando, poderosos, por toda parte
arroubos de grandes sofrimentos.
Passos a passos por becos e vielas
ruas proibidas, cravejadas de libertinagens
que vendem passagens para se voar
e andar por dentro de nuvens rosas
quando cai o sol, erguendo-se o crepúsculo
deixando no corpo, leve, cada músculo
abrindo para a mente o torvo mundo
e no fundo, no escuro, a luz se revela.

Passos... poemas que se versejam
e veja... ainda há tempo para os versos
para metáforas afloradas no peito
cultivadas nos jardins da imaginação
como as mais belas flores da Natureza
e misturando-se tudo, encanta a beleza
de risos largos e alegres, e qualquer briga besta
é outro ingrediente para se gritar – viva à poesia!


Desejo

Luz...
deixe a luz acesa
quero ver teu corpo
enquanto te amo...
quero olhar
tua nudez deita,
quero a luz
clareando tuas curvas...
quero sentir minhas mãos
passeando em teus seios
e deslizando por dentre tuas pernas...
quero nossos corpos nus,
colados,
viver um sacrilégio santificado.
Apague a luz...
no silêncio da escuridão
quero morrer
dentro de você.


Um Toque Erótico


Eu quero sentir
os lábios de minha boca
roçando de maneira louca
os lábios de sua buceta...
ah! menina eu não sou careta.


Fome

Fome



O menino chora
e sua mãe consola.

Mas não há
como consolar...
essa angústia sem nome
é simplesmente fome.

Fome cruel, avassaladora...
dor terrível, horrível,
que nem sua mãe,
doce genitora,
pode acalmar.

Inútil, tudo!

No Sertão dos retirantes
são apenas dois andantes
caminhando em busca de esperanças
num país que não as têm.

Mas Deus está lá, também!



Caminhos do Poeta

Aonde vais, Poeta?
 vou ver meu povo como está!
  vou ver minhas crianças chorando!
   vou ver minhas mulheres parindo!

Por onde vais, poeta?
 vou por becos escuros
  caminhando pelas ruas
   protegido pela lua
    vou entrando pelos bares
     e perdendo-me pelos bregas!

E depois, Poeta?
 depois, deixo meu canto solto no ar,
  deixo o meu amor gritar
   bebo bálsamo vermelho
    e durmo pra não acordar.



Que beleza
é uma roseira
com flores
abertas ao sol...
que tristeza
é uma rosa
presa num vaso,
          só!